Noção de Nada – Sem Gelo

Noção de Nada
Nada de mais (do mesmo)  – Release 2006  – Noção de Nada
por Ricardo TibiuEstrear uma formação parece desestabilizar algumas bandas. Umas perdem a identidade, outras demoram a se entrosar. Não é o caso do Noção de Nada, que após um hiato devido a saída de Eduardo Sodré (guitarra) no ano passado, decidiu arregaçar as mangas e continuar. Gabriel Zander, por exemplo, que acumulava a função de baterista e vocalista, largou as baquetas e ficou só com o microfone, Marcelo Cunha e Gabriel Menezes mantiveram suas funções, baixo e guitarra, respectivamente. Os amigos Gabriel Arbex (guitarra) e Ricardo Rito (bateria) foram recrutados e já saíram em turnê com a banda.
A chegada dos novos integrantes e o novo formato trouxeram uma nova energia ao grupo. E foi nessa vibe que o grupo entrou no estúdio Superfuzz, no Rio de Janeiro, para gravar “Sem Gelo”. Lançado em agosto de 2006, numa parceria entre os selos cariocas Manifesto Discos e Urubuz Records e o paulista Ideal Records, e gravado, mixado e masterizado por Zander, o quarto álbum do Noção de Nada promete surpreender – mesmo quem já se acostumou com as mudanças a cada disco. Se Ramones, Motorhead e AC/DC são mestres em manter a sonoridade ao longo de décadas, mesmo admirando os três, o NDN segue caminho oposto. Tanto em termos de arranjos e timbres, quanto de letras e vocais.
O quinteto se superou, e quem ouviu as faixas que eles serviram de aperitivo na internet pôde comprovar. “Expediente” chega de mansinho, calma e contida, até que a banda coloca um pouco dos tradicionais improvisos dos palcos, e finalmente a canção explode em riffs e pegada quase stoner. Em “Orgânico” o belo trabalho de guitarras contracena com a alternância vocal – ora melódico, ora gritado. “Aspirina”, que abre o CD, também é assim e promete incendiar os shows. Por falar nisso, o final de “A Partir de Agora” garantirá palminhas e o público repetindo o refrão. Ao que tudo indica o NDN conseguiu algo que muitas bandas aspiram: reinventar seu próprio estilo. As diversas influências antes adormecidas (ou discretas) resolveram despertar. Então, ao longo das 12 faixas, pode-se ouvir ecos do pop ao jazz. Se em “Power Mono” há rock, hardcore, metal e MPB, “Garçom, Sem Gelo, Por Favor” é uma bossa-experimental-punk-rock-and-roll.
As letras estão menos subjetivas, mais diretas e talvez um pouco mais provocativas que outrora. Vide “Um Segundo”, “Esquina C.Gardel”, “Ela Não Sabe Ser Feliz” e “Suja a Roupa, Mas Lava a Alma”. Como se fosse um recado a um amigo que decidiu tomar outro rumo da vida chega “Planos À Esquerda”, e não vai faltar quem se identifique com ela. Assim como no CD anterior, “Trilogia Suja de Copacabana” (2004), há uma música onde o Marcelo Cunha rouba a cena e exorciza seus fantasmas. Aqui ele solta o verbo em “Feio”.
O que o grupo faz pode não ser um som revolucionário – e nem tem pretensão disso – eles só querem exteriorizar anseios e vivências. Para alguns pode não ser nada de mais, mas para outros pode haver respostas e sentidos para muita coisa. Em “Um Segundo”, eles dizem “(…) não traga mais do mesmo, não me venha com a mesma conversa (…)”. Com o Noção de Nada é assim, e quem quiser mais do mesmo que vá procurar por aí, mas que seja bem longe deles.